Brasil

Por que quem mais sofre continua entregando seu destino através do voto, a quem não consegue mudar sua realidade?

Embora ouça, eleição após eleição, promessas de mudança e de uma vida melhor, grande parte da população continua enfrentando as mesmas dificuldades. Por que tantas promessas ficam apenas nos discursos eleitorais?

Publicado em 14/10/2026, 14:04
Por que quem mais sofre continua entregando seu destino através do voto, a quem não consegue mudar sua realidade?

POR QUE QUEM MAIS SOFRE CONTINUA ENTREGANDO SEU DESTINO A QUEM NÃO TEM NENHUM INTERESSE EM MUDAR SUA REALIDADE?

Embora ouça, eleição após eleição, promessas de mudança e de uma vida melhor, grande parte da população continua enfrentando as mesmas dificuldades. Por que tantas promessas ficam apenas nos discursos eleitorais?

Por Redação Itabaiana News

Juarez Guide da Veiga — Editor-chefe

Reportagem especial | Análise social e política

Há perguntas que incomodam porque nos obrigam a olhar para uma realidade que preferimos não enxergar.

Uma delas surge sempre que as urnas são abertas: por que tantas pessoas continuam votando nos mesmos partidos, nos mesmos grupos políticos e, muitas vezes, nas mesmas lideranças, mesmo depois de anos convivendo com dificuldades que parecem não ter fim?

Por que uma mãe que espera meses por uma consulta médica continua acreditando no governo?

Por que um trabalhador que acorda antes do sol, enfrenta transporte precário e recebe um salário insuficiente mantém sua confiança em quem administra o país, o estado ou o município?

Por que uma família que vive há décadas dependendo de ajuda pública continua depositando esperança em promessas de transformação?

E, sobretudo, por que o sofrimento nem sempre se transforma em desejo de mudança?

A resposta não cabe em uma acusação, em um partido ou em uma frase de efeito.

Talvez o primeiro erro seja imaginar que conhecemos as razões do voto de alguém apenas porque sabemos onde essa pessoa mora, quanto ganha ou qual benefício recebe.

O segundo erro é ainda mais grave: confundir pobreza com falta de inteligência.

**O eleitor que enfrenta dificuldades não necessariamente desconhece sua realidade. Muitas vezes, conhece-a melhor do que aqueles que tentam explicá-la de longe.**

A questão é compreender como a necessidade, a memória, o medo, a gratidão, a identidade e as experiências concretas com o poder influenciam escolhas que, vistas de fora, podem parecer contraditórias.

## O paradoxo nordestino: avanços reais, problemas que permanecem

O Nordeste ocupa um lugar central nessa discussão.

Ao longo das últimas décadas, a região experimentou mudanças importantes: ampliação do acesso à energia elétrica, expansão do ensino superior, programas de transferência de renda, investimentos em infraestrutura e maior acesso a serviços públicos.

Seria injusto ignorar essas transformações.

Mas também seria irresponsável fechar os olhos para o que ainda falta.

Em muitas comunidades, o saneamento continua insuficiente. A juventude encontra dificuldades para conseguir emprego. Famílias dependem de rendimentos instáveis. A qualidade da educação varia profundamente entre municípios, e a distância entre os direitos previstos na Constituição e os serviços efetivamente oferecidos continua enorme.

Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, 39,4% da população nordestina estava em situação de pobreza em 2024, mesmo após uma redução expressiva em relação aos 47,2% registrados em 2023.

O número revela duas verdades que precisam ser consideradas ao mesmo tempo: houve melhora, mas a pobreza continua atingindo uma parcela muito elevada da população.

Na educação, os desafios também permanecem. Dados do IBGE referentes a 2024 indicavam taxa de analfabetismo de 11,1% entre os nordestinos de 15 anos ou mais, diante de uma média nacional de 5,3%.

Esses números não autorizam ninguém a diminuir o eleitor nordestino.

Ao contrário: deveriam provocar uma cobrança muito mais exigente de todos os governos que passaram pelo poder.

**Se houve avanços, por que eles ainda não foram suficientes? Se os problemas são conhecidos há décadas, por que continuam presentes? E quem deve responder por isso?**

## A fome muda a maneira de enxergar o futuro

Imagine uma família que chega ao fim do mês sem saber se conseguirá comprar alimentos suficientes.

Para quem possui renda estável, uma eleição pode representar uma escolha entre diferentes propostas econômicas, projetos de desenvolvimento ou visões ideológicas.

Para quem enfrenta insegurança alimentar, a decisão também pode envolver uma preocupação muito mais imediata: o que acontecerá amanhã?

Não se trata de dizer que a pessoa pobre não pensa no futuro.

Ela pensa.

Pensa no estudo dos filhos, na possibilidade de construir uma casa, em conseguir emprego, em envelhecer com dignidade.

Mas a urgência do presente pode limitar as escolhas disponíveis.

Quando uma família depende de determinada política pública para complementar sua renda, a possibilidade de perdê-la pode pesar na avaliação de qualquer mudança de governo.

Mesmo quando essa ameaça não existe de fato, discursos políticos podem alimentar a insegurança.

E aqui nasce uma pergunta difícil:

**Uma pessoa consegue escolher livremente quando acredita que sua sobrevivência está ameaçada?**

O medo não explica todos os votos. Mas pode ajudar a compreender por que a continuidade parece mais segura do que uma alternativa desconhecida.

A mudança pode representar esperança para quem possui reservas financeiras.

Para quem não possui nada, também pode representar risco.

## A gratidão pode se transformar em fidelidade política?

Há outro elemento que precisa ser examinado com cuidado: a memória.

Quem passou a infância estudando à luz de uma lamparina dificilmente esquece a chegada da energia elétrica.

Quem viu um filho ingressar na universidade, tornando-se o primeiro da família a conquistar um diploma, dificilmente trata essa experiência como algo sem importância.

Quem conseguiu comprar comida com mais regularidade ou recebeu apoio em um período de extrema dificuldade pode associar essa mudança ao governo responsável pela política pública.

Essa associação não é necessariamente ignorância, manipulação ou dependência.

Pode ser reconhecimento por uma melhoria real.

Mas existe uma diferença fundamental entre reconhecer uma conquista e conceder fidelidade permanente a quem a realizou.

**A gratidão pelo que um governo fez deve impedir a cobrança pelo que ele deixou de fazer?**

Um benefício recebido no passado justifica aceitar indefinidamente a precariedade do hospital, da escola, da estrada ou do mercado de trabalho?

O cidadão pode reconhecer os avanços de uma administração e, ao mesmo tempo, exigir resultados muito superiores.

A política democrática não deveria funcionar como uma dívida eterna entre governantes e governados.

Afinal, os recursos públicos não pertencem aos políticos.

Pertencem à sociedade.

## Quando o direito começa a parecer um favor

Talvez uma das maiores fragilidades da democracia brasileira esteja na maneira como determinados serviços públicos são apresentados à população.

A Constituição estabelece direitos.

Mas, na prática, muitos cidadãos ainda precisam procurar intermediários para conseguir aquilo que deveria estar disponível de forma regular.

É o paciente que depende de um pedido especial para conseguir atendimento.

É a família que procura uma liderança política para tentar resolver um problema administrativo.

É o trabalhador que acredita precisar da indicação de alguém influente para acessar uma oportunidade.

É a comunidade que agradece pessoalmente a um governante por uma obra financiada com dinheiro público.

Nem toda intermediação representa irregularidade. Há situações em que representantes legitimamente ajudam a população a acessar serviços.

O problema começa quando o acesso a direitos passa a depender de relações pessoais, favores ou demonstrações de lealdade.

Nesse ambiente, o governante pode deixar de ser visto como alguém temporariamente responsável por administrar recursos coletivos e passar a ocupar o lugar de benfeitor.

E o cidadão, que deveria cobrar, pode sentir que precisa agradecer.

Pesquisadores como Marcel Bursztyn e Suely Salgueiro Chacon discutem como políticas de proteção social podem ser apropriadas por práticas clientelistas em contextos de instituições frágeis.

Isso não significa que a assistência social seja, por natureza, clientelista.

Significa que até mesmo uma política legítima pode ser utilizada indevidamente por agentes políticos.

A distinção é essencial.

**Bolsa Família não é favor de presidente, governador, prefeito ou vereador. É uma política pública regida por critérios legais.**

A existência de um programa social não torna seu beneficiário politicamente subordinado.

Mas transformar a concessão ou a continuidade de um direito em instrumento de pressão eleitoral ameaça a liberdade de escolha.

E então surge outra pergunta:

**Quando um cidadão sente que deve seu sustento a uma liderança, como separar a gratidão pessoal do direito de discordar politicamente?**

## Por que a mesma liderança continua recebendo confiança?

A permanência de um grupo político no poder não possui uma única explicação.

Parte dos eleitores pode estar satisfeita com os resultados.

Outra parte pode reconhecer avanços, embora considere o desempenho insuficiente.

Há quem vote por identificação partidária, tradição familiar, valores culturais ou preferência por determinadas políticas econômicas.

Outros podem rejeitar as propostas, o discurso ou o histórico dos adversários.

Também existem eleitores que se decepcionam com todos os lados, mas acabam escolhendo aquele que consideram menos arriscado.

Essa diversidade importa.

É possível que dois vizinhos, vivendo na mesma rua e enfrentando dificuldades semelhantes, votem no mesmo candidato por motivos completamente diferentes.

Um pode estar agradecido por melhorias concretas.

Outro pode temer perder uma política social.

Um terceiro pode desconfiar profundamente da oposição.

E um quarto pode simplesmente acreditar que aquele projeto político ainda oferece as melhores possibilidades.

Reduzir todos esses comportamentos a um suposto voto comprado pela necessidade seria ignorar a complexidade da sociedade.

Mas reconhecer essa complexidade não significa deixar de cobrar resultados.

A pergunta permanece:

**Quanto tempo de confiança um projeto político deve receber antes de ser confrontado com aquilo que prometeu e ainda não entregou?**

## A oposição também precisa responder: qual é a alternativa?

É relativamente fácil criticar a continuidade de um governo.

Mais difícil é convencer uma população de que a mudança produzirá resultados concretos e não representará a perda de conquistas anteriores.

Esse é um desafio para qualquer oposição, de esquerda, centro ou direita.

Não basta afirmar que o povo precisa mudar seu voto.

É necessário demonstrar como serão preservados os direitos existentes e enfrentados os problemas que permanecem.

Quem propõe uma mudança precisa explicar como pretende gerar empregos, melhorar a educação, ampliar o saneamento, fortalecer a saúde pública e reduzir a desigualdade.

Também precisa mostrar de onde virão os recursos, quais serão as prioridades e como os resultados poderão ser cobrados.

Afinal, substituir um grupo político por outro, sem alterar práticas administrativas e estruturas de poder, pode significar apenas uma troca de nomes.

**De que adianta mudar o partido se permanecem os mesmos privilégios, os mesmos métodos e a mesma distância entre o governo e a população?**

A alternância de poder é uma possibilidade democrática importante, mas não é uma solução automática.

Da mesma forma, a continuidade não deve ser tratada como prova de sucesso.

Ambas precisam ser avaliadas pelos resultados.

## O Nordeste não é um eleitor único

Outro erro frequente aparece quando milhões de pessoas são tratadas como se pensassem da mesma maneira.

O Nordeste reúne nove estados, grandes capitais, cidades industriais, comunidades rurais, regiões metropolitanas, polos universitários, áreas turísticas e territórios com histórias políticas muito diferentes.

Existe o Nordeste da agricultura familiar, o das indústrias, o do comércio, o dos serviços, o das universidades, o das periferias urbanas e o dos pequenos empreendedores.

Existem eleitores de esquerda, de direita, de centro e pessoas que rejeitam todas essas classificações.

Os resultados das eleições de 2026 ajudam a demonstrar essa diversidade.

Na Bahia, Jerônimo Rodrigues, do PT, foi reeleito governador no primeiro turno com aproximadamente 55,8% dos votos válidos.

No Ceará, Elmano de Freitas, também do PT, venceu com 53,19%.

No Piauí, Rafael Fonteles, do PT, alcançou aproximadamente 70,9%.

Mas outros estados nordestinos elegeram governadores de partidos diferentes, incluindo PSD, PP e PSDB.

Portanto, mesmo quando existe uma forte preferência regional por determinada liderança nacional, isso não significa fidelidade uniforme a um único partido em todas as disputas.

Também é necessário distinguir eleições presidenciais de eleições estaduais e municipais.

O eleitor pode apoiar Lula para presidente e escolher um governador de outro partido.

Pode votar em um prefeito conservador e em um deputado progressista.

Pode mudar de posição conforme o cargo, a candidatura e os problemas que considera prioritários.

A democracia real é muito mais complexa do que os mapas eleitorais coloridos fazem parecer.

## A pergunta que poucos fazem: quem ganha quando a pobreza permanece?

Chegamos a uma das questões mais incômodas desta análise.

A pobreza persistente não é apenas um problema social.

Ela também influencia as relações de poder.

Em comunidades onde faltam empregos, infraestrutura e serviços públicos, o acesso a recursos e oportunidades pode adquirir enorme importância política.

Quem controla decisões administrativas, contratos, nomeações e investimentos pode acumular influência sobre a vida cotidiana.

Isso cria condições para relações de dependência que precisam ser fiscalizadas.

Mas é necessário evitar uma conclusão que os dados, por si só, não permitem: a de que governos deliberadamente mantêm pessoas pobres para conquistar votos.

Essa é uma acusação grave, que exigiria provas específicas.

O que podemos afirmar é que a permanência de problemas estruturais favorece ambientes nos quais promessas, favores e intermediações políticas continuam exercendo grande influência.

E essa dinâmica não pertence exclusivamente à esquerda.

Práticas clientelistas também aparecem em grupos conservadores, partidos de centro, administrações locais e estruturas políticas tradicionais.

A pesquisa acadêmica sobre o Nordeste mostra que redes de clientelismo e alianças entre elites atravessam diferentes campos ideológicos.

Por isso, a pergunta deve ser dirigida a todos:

**Que resultados concretos os governantes apresentam para tornar a população menos vulnerável e mais independente?**

Quantas famílias conquistaram renda estável?

Quantos jovens encontraram oportunidades profissionais?

Quantas comunidades passaram a contar com saneamento adequado?

Quantos estudantes concluíram a escola com aprendizagem suficiente?

Quantas pessoas deixaram de depender de ajuda emergencial porque passaram a ter melhores condições de vida?

Essas perguntas permitem avaliar governos sem transformar a pobreza em instrumento de acusação contra quem a enfrenta.

## Assistência social e autonomia: uma escolha que não deveria existir

Existe uma falsa oposição que precisa ser superada.

De um lado, aparecem discursos segundo os quais programas sociais seriam suficientes para resolver a pobreza.

De outro, surgem afirmações de que a assistência produziria necessariamente dependência e acomodação.

Nenhuma dessas simplificações faz justiça à realidade.

A proteção social pode impedir que famílias caiam em situações ainda mais graves.

Pode ajudar crianças a permanecer na escola, contribuir para a alimentação e reduzir vulnerabilidades imediatas.

Esses efeitos importam.

Mas uma política de transferência de renda não substitui educação de qualidade, infraestrutura, segurança, oportunidades de trabalho e desenvolvimento econômico.

O desafio não deveria ser escolher entre oferecer ajuda hoje ou criar condições para uma vida melhor amanhã.

Uma sociedade comprometida com a dignidade humana precisa fazer as duas coisas.

**O benefício deve proteger a família enquanto for necessário. O desenvolvimento deve ampliar suas possibilidades de escolha.**

O verdadeiro avanço acontece quando uma pessoa consegue planejar o futuro sem viver permanentemente ameaçada pela falta do essencial.

E, mesmo quando continua necessitando de assistência, ela não perde sua autonomia política nem seu direito de discordar de qualquer governo.

## Quando os números melhoram, mas a vida continua difícil: o que as estatísticas não revelam?

Existe uma pergunta que merece atenção especial quando governos anunciam a redução da pobreza e do desemprego: **os brasileiros estão conquistando independência econômica ou apenas conseguindo sobreviver com menos dificuldades?**

A diferença é fundamental. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2025, do IBGE, a pobreza monetária atingia 23,1% da população brasileira em 2024. Em uma simulação sem as transferências sociais, a proporção estimada seria de 28,7%.

Esses números mostram que os benefícios fazem diferença concreta na renda das famílias. Também revelam, porém, quantas pessoas continuam vulneráveis a uma eventual perda dessa proteção.

Uma família pode ultrapassar a linha estatística de pobreza graças a uma transferência de renda sem, necessariamente, ter conquistado emprego estável, moradia adequada, saneamento básico ou oportunidades duradouras de crescimento.

**Isso não torna o indicador falso. Significa que ele mede uma dimensão específica da pobreza: a renda.** A melhoria monetária é real e importante; o que não se pode fazer é confundi-la com a superação de todas as formas de privação.

### E o desemprego? Quem fica fora da conta?

Outra distinção precisa ser compreendida. Na PNAD Contínua, o IBGE considera desocupada, em termos gerais, a pessoa sem trabalho que está disponível e tomou providências para procurar ocupação no período de referência, observadas as regras da pesquisa.

Quem desistiu de procurar trabalho pode ficar fora da taxa oficial de desocupação, mesmo permanecendo sem emprego. O recebimento de Bolsa Família, BPC ou outro benefício **não é o critério que define** se alguém está empregado ou desempregado.

Além disso, alguém que exerceu ao menos uma hora de trabalho remunerado na semana de referência pode ser classificado como ocupado. Isso não significa, por si só, ter um emprego formal, renda suficiente ou segurança profissional.

Por isso, uma análise séria deve acompanhar a taxa de desocupação com indicadores de informalidade, subocupação por insuficiência de horas, desalento, subutilização da força de trabalho e rendimentos.

**Estar estatisticamente ocupado não significa necessariamente estar economicamente seguro.**

### Quando um número verdadeiro é apresentado como se fosse toda a realidade

É legítimo que governos apresentem avanços econômicos e sociais. Também é legítimo exigir que expliquem o alcance e os limites desses resultados.

O problema aparece quando um indicador favorável é divulgado isoladamente, como se demonstrasse a solução de problemas que ele não foi construído para medir.

Uma redução da pobreza monetária merece reconhecimento. Mas não responde, sozinha, quantas famílias conquistaram autonomia financeira. Uma queda no desemprego é relevante, mas não descreve, isoladamente, a qualidade de todas as ocupações. E a ampliação da assistência social pode ser indispensável sem significar que as causas estruturais da desigualdade tenham sido superadas.

Isso exige transparência de qualquer governo, independentemente de partido. A metodologia estatística, por si só, não comprova maquiagem ou manipulação deliberada dos dados; uma acusação desse tipo depende de evidências específicas. O debate responsável é sobre **o que está sendo medido, como os resultados são apresentados e o que permanece sem resposta**.

Se os números melhoram, mas a população ainda enfrenta dificuldades profundas, o jornalismo precisa investigar as duas realidades — sem negar avanços nem esconder carências.

**Porque reduzir a pobreza nas estatísticas é importante. Mas transformar a vida de quem enfrenta a pobreza deve ser o objetivo maior.**

E fica a pergunta: **quando uma família deixa de ser considerada pobre graças a um benefício, mas continua sem emprego estável e sem perspectivas de independência, podemos dizer que superou a pobreza ou que passou a enfrentar suas dificuldades com uma proteção financeira indispensável?**

A resposta exige olhar além dos percentuais. Exige olhar para as pessoas.

## O papel da educação: ensinar a pensar, não ensinar em quem votar

Há uma relação importante entre educação e participação democrática, mas ela também costuma ser tratada de maneira equivocada.

Baixa escolaridade não significa incapacidade de fazer escolhas políticas conscientes.

Pessoas com formação universitária também podem votar por emoção, identidade, ressentimento, interesse econômico ou informações falsas.

A escolaridade, isoladamente, não garante independência de pensamento.

O que uma educação de qualidade pode oferecer são instrumentos adicionais para interpretar dados, conhecer direitos, comparar propostas, identificar desinformação e cobrar resultados.

Isso vale para todos os brasileiros.

O objetivo da educação política não deveria ser convencer o cidadão a votar na esquerda ou na direita.

Deveria ser ajudá-lo a compreender que nenhum governante está acima do questionamento.

Que promessas precisam ser verificadas.

Que números exigem contexto.

Que políticas públicas devem ser avaliadas.

E que votar não encerra a responsabilidade democrática.

**O cidadão não deveria precisar escolher entre ser grato e ser crítico. Pode — e deve — ser os dois.**

## A política do medo e a política da esperança

Em períodos eleitorais, o medo costuma ocupar um espaço enorme.

Um lado afirma que, se perder, os benefícios sociais estarão ameaçados.

Outro alerta que, se o adversário vencer, o país poderá enfrentar consequências econômicas, institucionais ou sociais graves.

Algumas preocupações podem se apoiar em propostas e fatos verificáveis.

Outras podem ser exageradas, distorcidas ou simplesmente falsas.

O eleitor precisa de informações suficientes para distinguir uma coisa da outra.

Quando uma campanha se sustenta principalmente no medo do adversário, corre o risco de reduzir o debate sobre aquilo que pretende construir.

A escolha democrática passa a girar menos em torno de projetos e mais em torno de ameaças.

Mas uma população não deveria ser obrigada a escolher permanentemente entre dois medos.

Deveria poder comparar propostas reais para educação, saúde, segurança, emprego, renda e desenvolvimento.

**A esperança política não pode depender apenas da promessa de impedir uma tragédia. Também precisa oferecer um caminho verificável para melhorar a vida das pessoas.**

## E quem sofre, mas continua votando no mesmo grupo?

Voltamos à pergunta que deu origem a esta reportagem.

Por que alguém continua votando em quem governa, mesmo quando sua vida permanece difícil?

Talvez porque tenha experimentado melhorias que considera importantes.

Talvez porque acredite que os problemas seriam maiores com outra administração.

Talvez porque confie em determinada liderança, mas não em seu partido.

Talvez porque não encontre uma alternativa convincente.

Talvez porque tenha medo de perder conquistas.

Talvez porque sua família compartilhe uma tradição política.

Talvez porque esteja insatisfeito com o governo, mas ainda mais insatisfeito com os adversários.

E talvez, em alguns casos, porque relações de dependência, desinformação ou pressões locais estejam limitando sua liberdade.

Essas hipóteses não são equivalentes nem podem ser atribuídas automaticamente a todos os eleitores.

Precisam ser investigadas, ouvidas e confrontadas com evidências.

A pergunta mais honesta não é simplesmente por que o povo insiste em votar errado.

É outra:

**O que cada eleitor acredita estar protegendo, conquistando ou evitando quando faz sua escolha?**

Somente depois de compreender isso será possível discutir, com seriedade, por que determinadas lideranças permanecem fortes mesmo diante de problemas persistentes.

## O sofrimento não deve ser naturalizado

Há uma realidade que atravessa todas as ideologias.

Nenhuma família deveria considerar normal viver sem saneamento.

Nenhuma mãe deveria aceitar como inevitável a falta de atendimento médico.

Nenhum jovem deveria precisar abandonar seus sonhos por ausência de oportunidades.

Nenhum trabalhador deveria passar a vida inteira sem conseguir melhorar suas condições materiais.

E nenhum governo deveria receber aprovação automática apenas porque a administração anterior também deixou problemas.

É preciso reconhecer que transformações estruturais levam tempo.

Mas o tempo não pode se transformar em desculpa permanente.

Se uma gestão promete desenvolvimento, deve apresentar indicadores de desenvolvimento.

Se promete educação, deve demonstrar avanços na aprendizagem.

Se promete combater a pobreza, precisa mostrar não apenas quantas famílias recebem auxílio, mas também como evoluem as condições de vida, o emprego, a renda e as oportunidades.

O mesmo critério deve valer para governos de qualquer partido.

A crítica responsável não consiste em negar conquistas.

Consiste em perguntar por que, apesar delas, tantas dificuldades permanecem.

## Conclusão: o voto deve ser livre até da obrigação de agradecer

Talvez o maior desafio político do Nordeste — e do Brasil — não seja simplesmente mudar os nomes que aparecem nas urnas.

Seja construir uma sociedade em que ninguém precise temer perder o essencial ao discordar de um governante.

Uma sociedade em que o benefício social seja reconhecido como direito, e não como presente.

Em que a escola prepare o cidadão para pensar livremente.

Em que o trabalho ofereça possibilidades reais de crescimento.

Em que o acesso à saúde não dependa de influência política.

Em que a gratidão não seja confundida com obediência.

E em que a crítica não seja confundida com ingratidão.

O eleitor nordestino não precisa ser tratado como vítima incapaz de compreender a própria escolha, muito menos como culpado pelas dificuldades históricas de sua região.

Precisa ser respeitado como cidadão.

Isso significa reconhecer suas experiências, mas também exigir dos governantes respostas que vão além dos discursos.

Porque existe uma pergunta que deveria acompanhar cada mandato, cada eleição e cada promessa:

**Se continuamos votando, trabalhando, pagando impostos e acreditando que amanhã será melhor, por que ainda precisamos lutar tanto para conquistar aquilo que deveria ser básico?**

E existe outra, talvez ainda mais difícil:

**Estamos escolhendo governos capazes de transformar nossa realidade ou apenas aqueles em quem confiamos para nos ajudar a suportá-la?**

Não cabe ao jornal responder por cada eleitor.

Cabe ao jornal apresentar fatos, investigar contradições e fazer perguntas que o poder nem sempre deseja ouvir.

A resposta pertence à consciência de cada cidadão.

Mas a cobrança pertence a todos nós.

**Porque a verdadeira liberdade política não está apenas em poder escolher quem governa. Está também em ter condições de viver com dignidade, independentemente de quem vença a eleição.**

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**Fontes e referências para consulta editorial**

- Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA): resultados das eleições estaduais de 2026.

- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): Síntese de Indicadores Sociais 2025, com indicadores de pobreza referentes a 2024; PNAD Contínua Educação 2024.

- Marcel Bursztyn e Suely Salgueiro Chacon: *Ligações perigosas: proteção social e clientelismo no Semiárido Nordestino*.

- Sergio Simoni Junior: *Efeitos diretos e indiretos do Programa Bolsa Família nas eleições presidenciais brasileiras*, revista Opinião Pública.

- Alfred P. Montero: *No Country for Leftists? Clientelist Continuity and the 2006 Vote in the Brazilian Northeast*.

- Constituição Federal de 1988: direitos sociais e princípios da administração pública.

- IBGE: *Síntese de Indicadores Sociais 2025* — pobreza monetária em 2024, com e sem transferências sociais.

- IBGE: *PNAD Contínua* — conceitos de ocupação, desocupação, desalento, informalidade e subutilização. Referência: https://www.ibge.gov.br/explica/desemprego.php

Juarez Guide da Veiga

Colunista — Cotidiano, Sociedade, Comportamento Humano, Cidadania e Reflexões.

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