Brasil

A IGNORÂNCIA APRISIONA. E O DIPLOMA NEM SEMPRE LIBERTA.

O futuro de uma nação começa em casa, na alimentação e na sala de aula.

Publicado em 13/10/2026, 12:05
A IGNORÂNCIA APRISIONA. E O DIPLOMA NEM SEMPRE LIBERTA.

GRILHÕES INVISÍVEIS — CAPÍTULO 4

A IGNORÂNCIA APRISIONA. E O DIPLOMA NEM SEMPRE LIBERTA.

Da criança que vai à escola esperando encontrar alimento ao universitário que corre o risco de trocar conhecimento por submissão ideológica: uma reflexão sobre educação, desigualdade, poder político e a liberdade de pensar.

**Por Juarez Veiga — Editor-Chefe e Publisher**

**Portal Itabaiana News — A Voz do Agreste Sergipano**

## Quando a fome acompanha a criança até a escola

Imagine uma criança acordando cedo em algum lugar do Brasil.

A casa é simples. A família enfrenta dificuldades. Na cozinha, talvez não exista pão, leite, frutas ou qualquer alimento suficiente para começar o dia.

A mãe olha para o filho e procura esconder a preocupação. O pai, quando presente, talvez já tenha saído para trabalhar, procurando garantir o sustento da família. Em outras casas, uma mãe ou outro responsável enfrenta sozinho essa responsabilidade.

A criança veste o uniforme, pega o material escolar e segue para a escola.

Ela deveria estar pensando na professora, nos colegas, nas brincadeiras e nas descobertas que fará durante as aulas.

Mas existe uma preocupação silenciosa acompanhando seus passos.

A fome.

Talvez aquela criança não tenha tomado café da manhã. Talvez tenha jantado muito pouco na noite anterior. Talvez a merenda escolar seja a refeição mais importante que receberá naquele dia.

Ela não sabe o que é orçamento público. Não compreende licitações, contratos administrativos ou programas governamentais.

Também não conhece as disputas políticas que acontecem nos gabinetes.

Sabe apenas que está com fome.

E espera que, quando chegar a hora da merenda, encontre algo para comer.

Agora imagine que, depois de esperar durante toda a manhã, ela receba apenas três biscoitos e um copo de água adoçada com açúcar e corante.

Três biscoitos.

Um copo de bebida colorida.

E uma fome que talvez continue mesmo depois de consumir tudo.

**Aquela criança não foi à escola apenas para aprender. Foi também com a esperança de encontrar o alimento que faltava em sua própria casa.**

Essa imagem é uma representação de uma situação que precisa ser investigada sempre que houver denúncias de alimentação escolar insuficiente. Sem comprovação de sua origem, não podemos atribuí-la a uma escola ou município específico.

Mas a reflexão que ela provoca é real e necessária.

A alimentação escolar não é um favor prestado por prefeitos, governadores ou qualquer autoridade.

É uma política pública que integra o direito à educação e à alimentação.

No Brasil, o Programa Nacional de Alimentação Escolar, o PNAE, possui regras próprias para contribuir com a alimentação e o desenvolvimento dos estudantes da educação básica pública.

Por isso, quando uma criança recebe alimentação insuficiente, é necessário investigar o que aconteceu.

O cardápio era adequado? Havia nutricionista responsável? Os alimentos foram comprados e entregues? Existiu falha no fornecimento? A situação foi excepcional ou recorrente?

Não basta observar uma fotografia e apontar culpados.

Mas também não podemos aceitar que uma situação comprovadamente inadequada seja tratada como algo sem importância.

**Uma criança com fome não precisa de propaganda. Precisa de alimento.**

E precisa, sobretudo, de oportunidades para que a fome não continue fazendo parte de sua história.

## 1. O futuro de uma nação começa no prato e na sala de aula

Costumamos ouvir que as crianças representam o futuro do Brasil.

A frase aparece em discursos, campanhas, solenidades e comemorações.

Mas o futuro não se constrói apenas com palavras.

Ele começa nas condições oferecidas a cada criança durante os primeiros anos de vida.

Uma alimentação adequada contribui para o crescimento, a saúde e o desenvolvimento.

A educação de qualidade amplia conhecimentos, capacidades e oportunidades.

O ambiente familiar, a proteção social e o acesso aos serviços essenciais também influenciam profundamente a formação humana.

Quando essas condições faltam, os obstáculos podem se acumular.

Uma criança que frequenta a escola com fome pode encontrar dificuldades para se concentrar.

Um estudante que não desenvolve habilidades básicas de leitura e matemática pode enfrentar limitações em etapas posteriores.

Um jovem que conclui a educação básica sem aprendizagem suficiente pode encontrar dificuldades para ingressar no ensino superior, conseguir emprego ou desenvolver uma atividade profissional.

Isso não significa que a pobreza determine o destino de alguém.

Milhões de brasileiros construíram suas vidas enfrentando enormes dificuldades.

Mas histórias de superação não podem servir de justificativa para abandonar aqueles que ainda precisam de oportunidades.

**O talento humano não escolhe a família em que vai nascer. Mas as oportunidades disponíveis podem influenciar profundamente o caminho que cada pessoa conseguirá percorrer.**

Quantos futuros professores, médicos, agricultores, engenheiros, pesquisadores e empreendedores podem estar hoje sentados em salas de aula sem receber condições adequadas para desenvolver suas capacidades?

Não sabemos responder com um número.

Mas a pergunta deveria incomodar qualquer sociedade comprometida com seu futuro.

Porque desperdiçar recursos públicos é grave.

Desperdiçar possibilidades humanas também é.

## 2. O diploma nas mãos e o conhecimento que pode estar faltando

Existe uma diferença fundamental entre frequentar a escola e aprender.

Da mesma forma, concluir um curso e receber um diploma não significa necessariamente dominar todos os conhecimentos que deveriam ter sido adquiridos.

O certificado possui valor. Representa a conclusão de uma etapa educacional e pode abrir portas importantes.

Mas a qualidade da formação precisa ser examinada com seriedade.

Um estudante pode avançar de série apresentando dificuldades de leitura.

Pode concluir etapas escolares sem compreender operações matemáticas fundamentais.

Pode decorar conteúdos para avaliações e esquecê-los pouco tempo depois.

E pode chegar à vida adulta sem conhecer suficientemente seus direitos, seus deveres ou o funcionamento das instituições públicas.

Não estamos afirmando que isso aconteça com todos os estudantes.

Tampouco estamos desvalorizando o trabalho de professores e escolas que conseguem excelentes resultados.

Estamos questionando a distância que pode existir entre escolarização formal e aprendizagem efetiva.

O Brasil possui instrumentos de avaliação, como o Sistema de Avaliação da Educação Básica, o Saeb, justamente para acompanhar o desempenho dos estudantes e identificar desafios educacionais.

Esses indicadores devem ser examinados ao lado de outros fatores, como desigualdades sociais, condições das escolas, formação docente e políticas educacionais.

**Uma sociedade não deveria comemorar apenas a quantidade de diplomas entregues. Deveria também perguntar quanto conhecimento foi efetivamente construído.**

Porque um diploma pode comprovar uma trajetória escolar.

Mas não substitui a capacidade de compreender, questionar, argumentar e tomar decisões conscientes.

E aqui surge uma questão ainda mais importante.

A escola está ensinando o estudante a pensar?

Ou, em determinadas situações, está apenas ensinando a repetir?

## 3. Educação Moral e Cívica e OSPB: o que ficou pelo caminho?

Quem estudou nas décadas de 1970 e 1980 provavelmente se recorda de duas disciplinas: Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil, conhecida como OSPB.

Para muitos estudantes, essas matérias representaram uma oportunidade de conhecer aspectos da organização política brasileira, das instituições, dos deveres individuais e da participação na sociedade.

Há pessoas que guardam lembranças positivas desse aprendizado.

Recordam professores dedicados, exigentes e comprometidos com a formação dos alunos.

Também lembram uma época em que a autoridade do professor era exercida de maneira diferente da atual, por vezes com métodos excessivamente rígidos que não precisam ser recuperados para que possamos valorizar a disciplina e o compromisso com o ensino.

Entretanto, a história dessas matérias exige uma análise cuidadosa.

A obrigatoriedade da Educação Moral e Cívica foi estabelecida pelo Decreto-Lei nº 869, de 1969, durante o regime militar.

Naquele período, a formação cívica também esteve relacionada a valores e concepções políticas defendidos pelo próprio regime.

É possível reconhecer conteúdos úteis ensinados nessas disciplinas sem ignorar seu contexto histórico e ideológico.

Em 1993, a Lei nº 8.663 revogou sua obrigatoriedade como disciplinas específicas.

Mas há um detalhe fundamental.

A legislação também determinou que conteúdos relacionados à formação da cidadania e ao conhecimento da realidade brasileira fossem incorporados às disciplinas de Ciências Humanas e Sociais.

Portanto, a mudança legal não significou que a formação cívica deveria desaparecer da educação.

E é justamente aqui que começa uma investigação necessária.

**O conhecimento sobre a organização política brasileira foi efetivamente preservado?**

Quantos estudantes concluem o ensino médio sabendo explicar as atribuições de um vereador?

Quantos compreendem a diferença entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário?

Quantos sabem como funciona a elaboração do orçamento municipal?

Quantos conseguem consultar um portal de transparência?

Quantos compreendem o papel dos tribunais de contas, do Ministério Público e dos mecanismos de fiscalização?

E quantos sabem distinguir um direito previsto em lei de um favor apresentado por determinada autoridade?

Não podemos responder a essas perguntas com suposições.

Precisamos de pesquisas, avaliações e informações sobre aquilo que efetivamente é ensinado.

Mas podemos afirmar que esses conhecimentos são importantes para o exercício da cidadania.

**Quem desconhece o funcionamento do Estado encontra mais dificuldades para fiscalizar aqueles que o administram.**

## 4. Quando a política entra na sala de aula

A política faz parte da vida em sociedade.

Ela influencia decisões sobre educação, saúde, segurança, economia, infraestrutura e inúmeros outros assuntos.

Por isso, não deveria ser tratada como um tema proibido nas escolas.

O estudante precisa compreender as instituições, as correntes de pensamento, os acontecimentos históricos e os diferentes projetos de organização social.

O problema não está em discutir política.

Está em confundir educação política com imposição ideológica.

Um professor possui o direito de ter suas próprias convicções.

Pode participar de debates públicos, defender ideias e exercer sua cidadania.

Mas sua responsabilidade profissional exige compromisso com o conhecimento, com o conteúdo da disciplina e com o respeito à liberdade intelectual dos estudantes.

Quando opiniões pessoais são apresentadas como verdades incontestáveis, o ensino perde uma de suas características mais importantes: a possibilidade de questionamento.

Quando o estudante teme discordar, a aprendizagem pode dar lugar à submissão.

E quando o conteúdo profissional é deixado de lado para privilegiar disputas ideológicas, surge uma questão legítima sobre a qualidade da formação oferecida.

Isso vale para qualquer corrente política.

Não seria aceitável substituir o ensino por propaganda partidária de esquerda, de direita ou de qualquer outra orientação.

Também seria injusto generalizar essas situações para todos os professores.

Existem profissionais extraordinários, que dedicam suas vidas ao ensino e enfrentam enormes dificuldades para oferecer uma educação de qualidade.

Esses educadores merecem reconhecimento.

**Um bom professor não precisa formar alunos que concordem com ele. Precisa formar pessoas capazes de compreender um assunto e construir suas próprias conclusões.**

A liberdade de pensamento não nasce da obrigação de concordar.

Nasce da oportunidade de conhecer, comparar, investigar e questionar.

## 5. Quando a universidade deixa de formar profissionais e começa a formar seguidores

Um jovem ingressa na universidade carregando sonhos.

Talvez seja o primeiro de sua família a alcançar o ensino superior. Talvez seus pais tenham feito enormes sacrifícios para que ele chegasse até ali.

Ele deseja aprender uma profissão, conquistar independência financeira, desenvolver suas capacidades e construir um futuro melhor.

Mas a universidade não é apenas um espaço de formação profissional. É também um ambiente de convivência, descobertas, debates e participação social.

Isso é legítimo e necessário.

O problema surge quando a participação política deixa de ser uma escolha consciente e passa a ocupar o lugar da formação acadêmica.

Quando estudantes são pressionados a aderir a determinadas posições ideológicas.

Quando o conhecimento técnico perde espaço para disputas partidárias.

Quando a discordância deixa de ser respeitada.

E quando jovens, ainda construindo suas convicções, passam a ser tratados mais como instrumentos de mobilização política do que como pessoas que precisam desenvolver autonomia intelectual.

Nessas circunstâncias, existe o risco de se tornarem massa de manobra de interesses que nem sempre compreendem plenamente.

E não importa se esses interesses estão à esquerda, à direita ou em qualquer outra corrente política.

**O jovem que ingressa na universidade para aprender não deveria sair dela apenas sabendo repetir o discurso de um líder. Deveria sair preparado para questionar qualquer líder, inclusive aquele com quem concorda.**

Isso não significa condenar o movimento estudantil, a participação política ou os professores que discutem questões sociais.

Significa defender que nenhuma organização, partido ou autoridade transforme a educação em instrumento de obediência.

Também não podemos afirmar que isso acontece em todas as instituições ou que represente a experiência da maioria dos universitários sem pesquisas que sustentem essa conclusão.

Mas os casos em que a liberdade intelectual é comprometida merecem ser examinados.

Uma universidade precisa formar médicos que conheçam medicina, engenheiros que dominem engenharia, professores preparados para ensinar, advogados que compreendam o direito e profissionais capazes de exercer suas atividades com competência e responsabilidade.

E precisa formar, ao mesmo tempo, cidadãos que saibam pensar.

Porque conhecimento técnico sem responsabilidade humana é insuficiente.

Mas militância política sem formação profissional também não substitui aquilo que o estudante foi buscar.

**A universidade não deve ser uma fábrica de seguidores. Deve ser um espaço de formação de profissionais competentes e cidadãos livres.**

E talvez esta seja uma das perguntas mais necessárias de nossa investigação:

**Estamos preparando nossos jovens para construir o próprio futuro ou permitindo que outros decidam o que eles devem pensar antes mesmo de aprenderem a questionar?**

## 6. A ignorância pode ser um instrumento de dependência?

Ao longo da história brasileira, diferentes formas de dependência econômica, social e política influenciaram as relações entre governantes e governados.

O coronelismo, especialmente associado a determinadas estruturas de poder local, é um exemplo histórico de como relações de autoridade, influência e dependência podem afetar a participação política.

O Brasil mudou profundamente desde então.

Mas isso não significa que práticas clientelistas tenham desaparecido completamente.

A troca de favores, o uso político de benefícios e a tentativa de apresentar direitos públicos como concessões pessoais continuam sendo temas que merecem fiscalização.

Entretanto, é necessário cuidado.

Não podemos afirmar, sem provas, que a retirada de determinadas disciplinas escolares foi planejada para manter a população ignorante.

Também não seria correto concluir que todos os políticos se beneficiam deliberadamente da falta de conhecimento dos cidadãos.

Essas afirmações exigiriam evidências específicas.

O que podemos investigar é algo concreto.

**Quais dificuldades uma pessoa enfrenta quando desconhece seus direitos e o funcionamento das instituições?**

Imagine um cidadão que recebe atendimento em um serviço público e acredita estar recebendo um favor pessoal de uma autoridade.

Imagine uma família que não sabe que determinado benefício possui critérios estabelecidos em lei.

Imagine um eleitor que desconhece as responsabilidades do cargo para o qual um candidato está concorrendo.

Ou um trabalhador que não sabe onde consultar informações sobre despesas realizadas com recursos públicos.

Em todas essas situações, o conhecimento pode ampliar a autonomia.

Não garante que a pessoa tome sempre a melhor decisão.

Mas oferece instrumentos para avaliar informações e fazer escolhas mais conscientes.

Uma sociedade educada não é aquela em que todos votam da mesma maneira.

É aquela em que cada cidadão possui condições de compreender propostas, examinar resultados e decidir livremente.

**A verdadeira educação política não ensina em quem votar. Ensina como avaliar qualquer pessoa que peça o seu voto.**

## 7. O contraste entre a alimentação escolar e o sistema prisional

Voltemos à criança que chegou à escola esperando encontrar alimento.

Agora pensemos em outra realidade.

Uma pessoa privada de liberdade, sob custódia do Estado, também precisa receber alimentação suficiente, assistência à saúde e condições mínimas de dignidade.

Esses direitos não desaparecem com a prisão.

A Constituição e a legislação brasileira estabelecem garantias que precisam ser respeitadas.

Mas a comparação entre essas duas realidades levanta uma questão importante sobre prioridades públicas.

**Se o Estado reconhece corretamente sua responsabilidade de alimentar quem está preso, como garantir que também cumpra integralmente suas obrigações com as crianças que dependem da alimentação escolar?**

Não se trata de defender que o preso receba menos comida.

Trata-se de exigir que nenhuma criança receba alimentação insuficiente.

Também não podemos presumir que toda unidade prisional ofereça refeições adequadas ou que toda escola apresente problemas na merenda.

Existem diferenças importantes entre instituições, regiões, contratos, custos e condições de atendimento.

Uma comparação responsável exige dados específicos.

Precisamos conhecer quanto é destinado à alimentação escolar, como esses recursos são utilizados, quais cardápios são oferecidos e quais mecanismos de fiscalização existem.

Também precisamos conhecer as despesas e as condições reais de alimentação nos estabelecimentos prisionais.

Somente assim será possível comparar políticas públicas sem transformar imagens isoladas em conclusões gerais.

Mas uma coisa não depende dessa comparação.

**Toda criança tem direito à alimentação adequada. E a insuficiência desse atendimento, quando comprovada, precisa ser enfrentada com urgência.**

Porque a fome não espera pelo próximo orçamento.

E o desenvolvimento de uma criança não pode ser adiado até que as disputas políticas encontrem uma solução.

## 8. O preso deve apenas cumprir pena ou também trabalhar para reconstruir sua vida?

Existe outra questão que merece reflexão.

Quando uma pessoa é condenada por um crime, a sociedade espera que a Justiça estabeleça a responsabilização prevista em lei.

A pena possui consequências reais.

A vítima tem direitos.

E a segurança da população precisa ser protegida.

Mas o que deve acontecer durante o cumprimento dessa pena?

A pessoa ficará anos afastada da sociedade sem desenvolver novas capacidades?

Ou poderá trabalhar, estudar, contribuir com sua família e preparar condições para a vida em liberdade?

A legislação brasileira já oferece caminhos para essa segunda possibilidade.

A Lei de Execução Penal, nº 7.210/1984, estabelece que o trabalho do condenado possui finalidade educativa e produtiva.

Seu artigo 29 prevê remuneração e regras para a destinação desses valores.

Entre as possibilidades legalmente estabelecidas estão a assistência à família, o ressarcimento de danos causados pelo crime, despesas pessoais, o ressarcimento ao Estado nos termos legais e a constituição de uma reserva financeira.

Essa reserva, chamada pecúlio, deve ser entregue ao preso quando colocado em liberdade.

A ideia é importante.

Uma pessoa que trabalha durante o cumprimento da pena pode adquirir experiência profissional, desenvolver habilidades e contribuir financeiramente com seus dependentes.

Também pode construir alguma segurança para enfrentar as dificuldades do retorno à sociedade.

Por que não ampliar oportunidades de trabalho agrícola, produção de alimentos, oficinas, serviços de manutenção e outras atividades compatíveis com as condições legais e de segurança?

Por que não investigar quantas pessoas presas possuem acesso efetivo a essas oportunidades?

E por que não avaliar os resultados dos programas existentes?

É necessário reconhecer que nem todos os presos estão na mesma situação jurídica.

Há condenados e presos provisórios, que possuem regras distintas.

Também existem limitações de saúde, segurança, capacidade institucional e disponibilidade de trabalho.

O trabalho prisional não pode ser transformado em exploração.

Mas essas dificuldades não eliminam a importância de buscar soluções.

**O cumprimento da pena deve responsabilizar pelo crime cometido, mas também pode oferecer oportunidades para que o retorno à liberdade não represente simplesmente a repetição das mesmas dificuldades.**

Isso não significa ignorar a responsabilidade individual.

A prática de crimes envolve condutas pelas quais as pessoas devem responder, respeitadas as garantias legais.

Também não significa afirmar que toda reincidência decorra da falta de oportunidades.

As causas são diversas e precisam ser estudadas.

Entretanto, a reintegração social merece atenção justamente porque grande parte das pessoas que cumprem penas privativas de liberdade retornará ao convívio social.

A pergunta que interessa à sociedade é simples:

**Estamos utilizando esse período apenas para manter pessoas afastadas ou também para reduzir as possibilidades de novos crimes depois da libertação?**

## 9. A criança que precisa começar e o adulto que precisa recomeçar

Existe uma diferença profunda entre uma criança que ainda está construindo sua história e um adulto que precisa reconstruir a própria vida depois de cumprir uma pena.

Não são situações equivalentes.

A criança possui direitos específicos de proteção e desenvolvimento.

O adulto condenado possui responsabilidades decorrentes de seus atos, além dos direitos que a legislação preserva.

Mas as duas situações revelam algo sobre o funcionamento das políticas públicas.

Uma sociedade precisa oferecer oportunidades para quem está começando a vida.

E precisa avaliar como preparar para o retorno aqueles que, depois de cumprir suas penas, voltarão ao convívio social.

A criança precisa de alimentação, educação, saúde, segurança e proteção.

O estudante precisa aprender de verdade.

O trabalhador precisa de oportunidades para desenvolver suas capacidades.

A pessoa que deixa a prisão precisa encontrar caminhos legítimos para reconstruir sua existência.

Essas responsabilidades não se anulam.

E não deveriam ser colocadas umas contra as outras.

O problema começa quando a discussão pública se transforma em uma disputa sobre quem merece dignidade.

**A dignidade humana não precisa ser retirada de uma pessoa para ser reconhecida em outra.**

O que precisamos discutir é como o Estado organiza suas prioridades, utiliza seus recursos e avalia os resultados de suas políticas.

Porque uma administração eficiente não deveria se limitar a anunciar despesas.

Deveria demonstrar o que essas despesas conseguem transformar.

## 10. A educação que liberta começa pelo direito de perguntar

Talvez um dos maiores desafios brasileiros seja compreender que educação não se resume à transmissão de conteúdos.

Ela também envolve a formação da autonomia intelectual.

Um estudante precisa aprender a interpretar textos, compreender números, reconhecer informações confiáveis e analisar argumentos.

Precisa conhecer a história de seu país, inclusive seus períodos democráticos e autoritários.

Precisa compreender os direitos fundamentais e as responsabilidades individuais.

E precisa saber que nenhuma autoridade está acima da possibilidade de questionamento legítimo.

Isso inclui políticos, governantes, dirigentes, professores e qualquer pessoa que exerça poder.

Mas a capacidade de questionar também exige responsabilidade.

Não basta desconfiar.

É necessário procurar informações.

Não basta acusar.

É necessário apresentar evidências.

Não basta discordar.

É preciso compreender aquilo que está sendo discutido.

O pensamento independente não significa rejeitar automaticamente tudo o que vem das instituições.

Significa possuir condições de avaliar o que elas afirmam.

**Uma escola que ensina seus alunos a pensar não precisa determinar quais conclusões eles devem alcançar. Precisa oferecer conhecimento suficiente para que consigam construir suas próprias conclusões.**

Essa formação é fundamental para a vida profissional.

Mas também é indispensável à democracia.

Porque o cidadão que compreende seus direitos possui melhores condições de defendê-los.

E aquele que entende como o dinheiro público é utilizado pode participar de maneira mais consciente da fiscalização das decisões governamentais.

## 11. O que esta investigação precisa descobrir?

Este capítulo não pretende apresentar soluções mágicas para problemas construídos ao longo de décadas.

Pretende formular perguntas que merecem respostas.

Precisamos investigar se a alimentação escolar atende adequadamente às necessidades dos estudantes.

Precisamos compreender os resultados da aprendizagem nas escolas brasileiras.

Precisamos examinar como a formação cívica e política aparece nos currículos atuais.

Precisamos identificar experiências educacionais que desenvolvem autonomia intelectual, capacidade de argumentação e respeito à diversidade de pensamento.

Precisamos investigar também como as universidades conciliam formação profissional, liberdade acadêmica e participação política, ouvindo estudantes, professores e dirigentes e examinando situações concretas, em vez de generalizações.

Também precisamos conhecer a realidade do trabalho e da educação dentro do sistema prisional.

Quantas pessoas trabalham?

Quantas estudam?

Quantas conseguem formar uma reserva financeira?

Quais programas apresentam resultados positivos?

E quais dificuldades impedem sua ampliação?

Essas perguntas precisam ser respondidas com dados públicos, documentos, pesquisas e informações verificáveis.

A investigação também deve observar a realidade de Sergipe e de Itabaiana sempre que existirem informações confiáveis e comparáveis.

Porque os grandes problemas nacionais possuem consequências concretas na vida das comunidades.

E é nelas que muitas decisões públicas revelam seus resultados.

## A pergunta que fica para o leitor

Voltemos, mais uma vez, àquela criança.

Ela acordou cedo.

Vestiu o uniforme.

Caminhou até a escola.

Talvez estivesse cansada, talvez preocupada, talvez sentindo a fome que trouxe de casa.

Mas também carregava algo precioso.

A possibilidade de aprender.

A possibilidade de descobrir suas capacidades.

A possibilidade de construir uma vida diferente.

E, acima de tudo, o direito de receber condições dignas para desenvolver seu potencial.

Essa criança não conhece os discursos que prometem transformar o país.

Não participa das disputas partidárias.

Não escolhe os responsáveis pela administração dos recursos públicos.

Mas sofre diretamente as consequências das decisões que afetam sua escola, sua alimentação e seu futuro.

Por isso, precisamos perguntar:

**Que país estamos construindo quando uma criança pode chegar à escola com fome e voltar para casa sem ter recebido alimentação suficiente?**

E que educação estamos oferecendo quando um estudante pode concluir sua formação sem compreender adequadamente o mundo em que vive?

E que universidade queremos quando um jovem precisa escolher entre exercer sua liberdade de pensamento e sentir-se aceito em determinados ambientes acadêmicos?

Não basta entregar um prato de comida hoje e esquecer o amanhã.

Mas também não basta prometer um futuro melhor enquanto falta alimento no presente.

As duas responsabilidades precisam caminhar juntas.

A criança precisa comer.

Precisa aprender.

Precisa ser protegida.

E precisa crescer sabendo que possui direitos, deveres e liberdade para pensar por conta própria.

Uma sociedade verdadeiramente educada não é aquela em que todos concordam com as mesmas ideias.

É aquela em que as pessoas conseguem conviver com diferenças, examinar fatos e tomar decisões conscientes.

O conhecimento não elimina todas as desigualdades.

Mas pode ajudar a romper barreiras que impedem o desenvolvimento humano.

E um diploma, por mais importante que seja, não substitui a aprendizagem real.

**A ignorância pode aprisionar sem grades. A dependência pode existir sem correntes. E a liberdade começa a ganhar sentido quando o cidadão aprende a compreender seus direitos e a questionar aquilo que lhe apresentam como verdade.**

Talvez o maior compromisso de uma nação não seja apenas preparar suas crianças para o futuro.

Seja garantir que elas tenham condições de viver dignamente o presente.

Porque nenhuma criança deveria precisar escolher entre aprender e suportar a fome.

Nenhuma escola deveria considerar suficiente apenas manter o aluno matriculado.

Nenhuma universidade deveria confundir formação profissional com obediência ideológica.

E nenhuma sociedade deveria confundir a entrega de diplomas com a formação de cidadãos conscientes.

**O futuro do Brasil não começa nos discursos dos governantes. Começa também no prato de comida, na sala de aula, na universidade e no conhecimento que oferecemos às nossas crianças e aos nossos jovens.**

**Grilhões Invisíveis — a investigação continua.**

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### Fontes e documentos de referência

1. **Constituição Federal de 1988** — Direitos fundamentais, educação, alimentação e proteção à infância.

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm

2. **Lei nº 11.947/2009** — Alimentação escolar e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l11947.htm

3. **Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE)** — Programa Nacional de Alimentação Escolar.

https://www.gov.br/fnde/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas/pnae

4. **Decreto-Lei nº 869/1969** — Educação Moral e Cívica.

5. **Lei nº 8.663/1993** — Revogação da obrigatoriedade de Educação Moral e Cívica e incorporação dos conteúdos formadores de cidadania às Ciências Humanas e Sociais.

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1989_1994/l8663.htm

6. **Lei nº 7.210/1984** — Lei de Execução Penal, especialmente os dispositivos sobre trabalho, remuneração e pecúlio.

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7210.htm

7. **Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep)** — Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).

https://www.gov.br/inep/pt-br

**Nota editorial:** A cena da criança recebendo três biscoitos e uma bebida adoçada é apresentada como representação narrativa de possível insuficiência alimentar, e não como ocorrência comprovada em uma escola identificada. Qualquer denúncia específica exige verificação documental, identificação do contexto e oportunidade de manifestação dos responsáveis. Da mesma forma, as reflexões sobre educação, influência política e sistema prisional não constituem acusações contra pessoas ou instituições determinadas.

Juarez Guide da Veiga

Colunista — Cotidiano, Sociedade, Comportamento Humano, Cidadania e Reflexões.

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