Das regras à proibição: por que Lula decidiu acabar com as bets que seu governo ajudou a regulamentar?
Governo atuou em 2023 pela regulamentação do setor e sancionou o novo marco; três anos depois, na reta final da eleição presidencial, Lula determina a proibição das apostas on-line e levanta questionamentos sobre o que provocou a mudança de rumo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva protagonizou, em pouco mais de três anos, uma mudança profunda na política federal para as chamadas bets. Em 2023, seu governo atuou para regulamentar um mercado de apostas que havia sido legalmente criado em 2018. Agora, em setembro de 2026, já na reta final da campanha em que disputa a reeleição, Lula assinou uma medida provisória que estabelece o caminho inverso: a proibição das apostas de quota fixa no país.
A sequência dos acontecimentos coloca uma pergunta no centro do debate: o que mudou entre o esforço político para regulamentar as bets e a decisão de acabar com esse mercado?
O MERCADO NÃO NASCEU NO GOVERNO LULA
É importante começar pela origem da atividade. As apostas de quota fixa não foram criadas pelo atual governo. A modalidade foi instituída pela Lei nº 13.756, de 2018, durante o governo Michel Temer.
O papel desempenhado pelo governo Lula veio depois e foi diferente: regulamentar a atividade.
Em julho de 2023, o Poder Executivo encaminhou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 3.626/2023. Na mesma época, foi editada a Medida Provisória nº 1.182/2023, que também tratava das apostas de quota fixa.
A própria Agência Câmara registrou naquele momento que o projeto havia sido enviado pelo governo federal com pedido de urgência e fazia parte, juntamente com a medida provisória, do esforço para regulamentar as apostas de quota fixa.
Portanto, o Executivo não foi apenas espectador da discussão travada no Congresso. O governo apresentou propostas e buscou estabelecer o marco regulatório para um mercado que já havia sido legalizado anos antes.
Depois da tramitação entre Câmara e Senado, o Congresso aprovou a regulamentação. Em dezembro de 2023, Lula sancionou a Lei nº 14.790, consolidando o novo marco das apostas de quota fixa no Brasil.
DO MARCO REGULATÓRIO À ESTRUTURAÇÃO DO MERCADO
A regulamentação não ficou restrita ao texto da lei.
Nos anos seguintes, o governo federal estruturou regras de autorização, fiscalização e tributação das empresas. Operadoras passaram a pagar outorgas para atuar legalmente no país e o setor passou a funcionar sob supervisão federal.
Reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 25 de setembro de 2026 informa que, desde 2024, foram concedidas 85 outorgas no valor de R$ 30 milhões cada, com autorização para exploração da atividade por cinco anos.
A mesma reportagem aponta que o mercado movimentou valores expressivos durante o período em que funcionou sob o novo modelo regulatório.
Ou seja: entre 2023 e 2026, o Brasil não apenas regulamentou as bets. Criou-se uma estrutura administrativa, tributária e de fiscalização destinada a permitir o funcionamento legal da atividade.
Foi um modelo cuja construção teve participação direta do governo federal.
TRÊS ANOS DEPOIS, A DIREÇÃO MUDA
Em setembro de 2026, a política mudou radicalmente.
Lula assinou medida provisória determinando a proibição da exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no território nacional.
A decisão atinge apostas esportivas e jogos on-line e estabelece um processo para encerramento das atividades.
Na prática, o governo que em 2023 atuou para estabelecer regras para o funcionamento desse mercado passou, três anos depois, a defender que ele não deve mais funcionar no país.
Governos podem rever políticas públicas. Mudanças sociais, econômicas ou comportamentais podem produzir novas avaliações e justificar decisões diferentes.
Mas, diante de uma reversão dessa dimensão, surge naturalmente outra pergunta: por que agora?
O ARGUMENTO SOCIAL
O governo passou a destacar com maior intensidade os efeitos sociais relacionados às apostas, principalmente o endividamento das famílias e os problemas provocados pelo jogo compulsivo.
A expansão das plataformas tornou as apostas parte do cotidiano de milhões de brasileiros e ampliou as preocupações sobre seus impactos econômicos e sociais.
Esse é o principal argumento apresentado para justificar o endurecimento da política.
Se os efeitos observados depois da regulamentação demonstraram que o modelo precisava ser revisto, a mudança pode representar uma reavaliação de uma política pública diante de consequências que ganharam dimensão maior do que a prevista originalmente.
Mas existe outro elemento que não pode ser ignorado na análise do momento escolhido para essa mudança: o calendário eleitoral.
POR QUE AGORA?
A proibição foi anunciada na reta final das eleições presidenciais de 2026, quando Lula disputa um novo mandato.
A proximidade da eleição, isoladamente, não demonstra que a decisão tenha sido tomada por motivação eleitoral.
Entretanto, reportagens publicadas nos dias anteriores e posteriores à medida mostram que o potencial político da ofensiva contra as bets também vinha sendo discutido.
A Folha de S.Paulo informou que o combate às plataformas passou a ocupar espaço importante na estratégia da campanha de Lula e publicou informações atribuídas a integrantes e estrategistas envolvidos nas discussões sobre possíveis repercussões eleitorais da medida.
Esse contexto torna legítima uma pergunta, mas não autoriza uma conclusão sem provas:
a decisão de proibir as bets decorreu exclusivamente dos efeitos sociais identificados pelo governo ou o momento eleitoral também influenciou a velocidade e a dimensão da mudança?
Até o momento, não há evidência pública suficiente para estabelecer que pesquisas eleitorais tenham sido a causa da decisão.
PESQUISAS MOSTRAM DISPUTA APERTADA
O questionamento ocorre num cenário de eleição presidencial competitiva.
Pesquisa Datafolha divulgada em 21 de setembro mostrou Lula com 39% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno. Com margem de erro de dois pontos percentuais, o instituto classificou os dois candidatos em empate técnico naquele levantamento.
No cenário de segundo turno, a pesquisa também apontou empate técnico.
O levantamento ouviu eleitores de todo o país e foi registrado na Justiça Eleitoral.
Os números não demonstram relação causal entre o desempenho eleitoral do presidente e a decisão sobre as bets. Servem, entretanto, para mostrar o ambiente político no qual uma mudança tão relevante foi anunciada.
REGULAMENTAR EM 2023, PROIBIR EM 2026
A cronologia é objetiva.
Em 2018, as apostas de quota fixa foram legalizadas.
Em 2023, o governo Lula enviou ao Congresso proposta para regulamentar a atividade, pediu urgência na tramitação e editou medida provisória relacionada ao setor.
O Congresso aprovou o marco regulatório.
Lula sancionou a legislação.
Nos anos seguintes, empresas receberam autorizações e pagaram outorgas para funcionar legalmente.
Em 2026, o mesmo governo passou a defender a proibição da atividade.
Essa sequência não significa, por si só, que uma das duas decisões tenha sido necessariamente errada. Políticas públicas podem e devem ser revistas quando seus resultados demonstram problemas.
Mas uma mudança dessa magnitude exige explicações claras sobre aquilo que mudou na avaliação do governo.
CONGRESSO VOLTA AO CENTRO DA DECISÃO
A medida provisória produz efeitos imediatamente, mas precisa ser analisada pelo Congresso Nacional para continuar válida.
Deputados e senadores voltarão, portanto, a discutir um mercado cuja regulamentação foi aprovada pelo próprio Legislativo três anos antes.
A situação produz uma inversão política significativa.
Em 2023, o Executivo procurou o Congresso para estabelecer regras para as apostas.
Em 2026, procura novamente o Congresso, agora para sustentar sua proibição.
UMA PERGUNTA QUE CONTINUA ABERTA
A discussão sobre as bets deixou de ser apenas uma questão de regulamentação econômica. Passou a envolver saúde financeira das famílias, comportamento social, fiscalização, arrecadação pública, empresas que receberam autorização estatal e, agora, também o contexto político de uma eleição presidencial.
O governo afirma que os efeitos sociais justificam a mudança.
A cronologia mostra, ao mesmo tempo, que o próprio governo teve participação ativa na construção do modelo que agora pretende encerrar.
E o calendário mostra que a reversão ocorre justamente durante uma disputa presidencial apertada.
Nenhum desses elementos, isoladamente, responde definitivamente por que a mudança ocorreu neste momento.
Por isso, a pergunta permanece:
o que pesou mais na decisão — os efeitos sociais das apostas identificados após a regulamentação, uma revisão genuína da política adotada desde 2023, o contexto eleitoral de 2026 ou uma combinação desses fatores?
A resposta exigirá acompanhar não apenas o discurso do governo, mas também os argumentos apresentados ao Congresso e a tramitação da nova medida.
6. TAGS
Cole:
Lula, bets, apostas online, Eleições 2026, Congresso Nacional, Governo Federal, MP 1394, Lei 14790, apostas esportivas
7. FONTES E RASTREABILIDADE
Cadastre uma por uma no quadro da direita.
Fonte 1 — Câmara dos Deputados
Use a matéria oficial que confirma que o PL 3.626/2023 foi enviado pelo governo com pedido de urgência e fazia parte do esforço de regulamentação. Portal da Câmara dos Deputados
Abrir fonte da Câmara
Fonte 2 — Metrópoles
É a reportagem que originou nossa pauta e detalha a nova MP e seus prazos.
Abrir reportagem do Metrópoles
Fonte 3 — Folha de S.Paulo
Para o histórico recente, outorgas e contexto político da reversão. Folha de S.Paulo
Abrir reportagem da Folha
Fonte 4 — Datafolha
Para o trecho eleitoral. O levantamento mais recente que localizei é de 21 de setembro: Lula 39% e Flávio Bolsonaro 36%, dentro da margem de erro de dois pontos. Datafolha
Abrir pesquisa Datafolha
Redação: Portal Itabaiana News
Editor responsável: Juarez Guide da Veiga
